Compartilhar
Informação da revista
Vol. 87. Núm. 6.
Páginas 753-757 (Novembro - Dezembro 2021)
Compartilhar
Compartilhar
Baixar PDF
Mais opções do artigo
Visitas
...
Vol. 87. Núm. 6.
Páginas 753-757 (Novembro - Dezembro 2021)
Relato de caso
Open Access
Kinking da artéria carótida comum associada a arco bovino: relato de caso e revisão da literatura
Visitas
...
Mohammed Hassan Abdelaty
Tanta University, Faculty of Medicine, Department of Vascular and Endovascular Surgery, Tanta, Egito
Informação do artigo
Texto Completo
Bibliografia
Baixar PDF
Estatísticas
Figuras (4)
Mostrar maisMostrar menos
Tabelas (1)
Tabela 1. Resumo de artigos anteriores descreve casos com kinking (acotovelamento), tortuosidade e enrolamentos (coiling) da artéria carótida comum
Material adicional (1)
Texto Completo
Introdução

O acotovelamento (ou kinking), a tortuosidade e os enrolamentos (ou coiling) da artéria carótida comum (ACC) são muito menos comuns do que a tortuosidade da artéria carótida interna (ACI) e também são menos relatados na literatura.

Para maior precisão, diferentes tipos de tortuosidade foram definidos. Embora definições não tenham sido relatadas para essa questão na ACC, essas definições foram inspiradas em artigos sobre a ACI. A tortuosidade é o alongamento ou redundância que cria um loop em forma de C ou S, sem um ângulo agudo. O acotovelamento ou kinking é a formação de um ângulo agudo, enquanto o enrolamento ou coiling é o alongamento em um espaço estreito, resultando em uma forma circular.1

Brown e Rowntree foram os primeiros a demonstrar a ligação entre hipertensão e o desenvolvimento de tortuosidade.2 Outros estudos começaram a apontar outros fatores de risco, como sexo feminino, aterosclerose, envelhecimento e arterite de Takayasu.3

As apresentações clínicas incluem lesões cervicais pulsáteis, disfagia4,5 e ataques isquêmicos transitórios (AIT).6 As investigações diagnósticas incluem ultrassonografia duplex e angiografia por tomografia computadorizada (TC) ou ressonância magnética (RM).7

Destacar essa condição é importante, porque ela pode ser confundida com aneurisma da artéria carótida,8 aumento da tireoide9 ou edema submandibular.10 Além disso, essa anomalia pode causar problemas inesperados durante cirurgias cervicais, particularmente a cirurgia de esvaziamento cervical11 e a traqueostomia.12

O arco bovino é a variante congênita mais comum da ramificação do arco aórtico, denominada padrão de arco aórtico tipo 2. É relatado que o mesmo ocorre em 13% a 27% da população. Essa anatomia variante não tem consequências clínicas. No entanto, sem conhecimento pré‐operatório, pode aumentar a dificuldade de procedimentos cirúrgicos e endovasculares que envolvam o arco aórtico.13

Neste artigo, apresentaremos um caso de kinking bilateral da artéria carótida comum e da artéria carótida interna associada ao arco aórtico bovino, com uma revisão de casos relatados anteriormente.

Relato de caso

Uma paciente do sexo feminino, 62 anos, hipertensa, apresentava histórico de edema pulsátil na região anterior do pescoço havia dois meses. A paciente negou qualquer histórico de trauma.

No momento do exame, o edema apresentava‐se como lesão pulsátil, mole, não dolorida, ocupava a região da tireoide, mas mais proeminente no lado direito (fig. 1). As pulsações da artéria carótida eram sentidas de maneira igual bilateralmente. A pressão arterial era 145/90.

Figura 1.

Lesão tumoral pulsátil na parte inferior do pescoço; a seta indica a parte mais proeminente da lesão.

(0,06MB).

Uma ultrassonografia duplex foi feita, mostrou kinking bilateral das ACCs sem placas ateroscleróticas. A angiotomografia foi feita, mostrou que a ACC esquerda originava‐se da artéria braquiocefálica (arco bovino), com kinking da ACC em ambos os lados próximos às suas origens. Além disso, havia kinking em ambas as ACIs e na artéria subclávia esquerda (figs. 2 e 3). Cardiomegalia não foi detectada na ecocardiografia.

Figura 2.

Angiotomografia mostra kinking bilateral da artéria carótida comum e interna junto com arco aórtico bovino. As setas indicam os locais de kinking em diferentes artérias.

(0,4MB).
Figura 3.

Reconstrução em 3D do arco aórtico e seus ramos, mostra as mesmas anormalidades. As setas indicam os locais de kinking em diferentes artérias.

(0,41MB).

A paciente era assintomática, exceto pela lesão cervical pulsátil, e as ocorrências de kinking estavam amplamente distribuídas. Portanto, a paciente foi orientada a controlar a hipertensão e fazer um acompanhamento regular. Após um ano de seguimento, não houve alteração da forma ou do tamanho do edema e a paciente não desenvolveu manifestações neurológicas ou AIT.

Revisão da literatura

Foram coletados dados dos últimos 25 anos (tabela 1).

Tabela 1.

Resumo de artigos anteriores descreve casos com kinking (acotovelamento), tortuosidade e enrolamentos (coiling) da artéria carótida comum

Autor  Ano  Idade  Sexo  Tipo  Lado  Apresentação  Fatores relacionados  Correção cirúrgica 
G. Choi et al.11  1998  60  Masculino  Tortuosidade  ACCD  Assintomática  Não  Não 
Peter H.L et al.5  2000  70  Feminino  Coiling  ACCE  DisfagiaLesão tumoral cervical  Hipertensão  Sim 
Gupta A et al.4  2005  82  Feminino  Tortuosidade  ACCD  Disfagia  –  Não 
Tsunoda K et al.14  2005  74  Feminino  Tortuosidade  ACCD  Histórico de AVC  Aterosclerose  Não 
              Postura encurvada   
Milic DJ. et al.6  2007  67  Feminino  Coiling  ACCE  AIT  Não  Sim 
Kawano H et al.3  2009  68  Feminino  Tortuosidade  ACCD  Assintomática  Arterite de Takayasu  Não 
Yildiz, S et al.15  2010  52  Feminino  Tortuosidade  ACCD  Disfagia  Hipertensão  Não 
          ACCE  Dispneia  Arco bovino   
          ACIE       
Katsanos S et al.16  2017  70  Feminino  Tortuosidade  ACCD  SíncopeLesão tumoral cervical  Não  Não 
Nakamoto T et al.10  2018  86  Feminino  Kinking  ACCD  Lesão tumoral cervical (submandibular direita)  Hipertensão  Não 
Chen P‐J et al.9  2018  58  Feminino  Kinking  ACCD  Lesão tumoral cervical  Não  Não 

ACCD, Artéria carótida comum direita; ACCE, Artéria carótida comum esquerda; ACIE: Artéria carótida interna esquerda.

Além do resumo anterior, Iwanaga et al. notaram a presença de ACC tortuosa durante a dissecção de quatro cadáveres.12 Em um recente ensaio clínico randomizado, Iwai‐Takano et al. concluíram que o kinking da ACC é um fator de risco independente para o desenvolvimento de eventos cardiovasculares maiores.17

Em geral, a predominância do sexo feminino é um achado consistente nos casos anteriores. A ACC direita é muito mais comumente afetada do que a esquerda. Entretanto, os dois casos de coiling relatados na ACC ocorreram no lado esquerdo. Enquanto tortuosidade, coiling e kinking da ACI foram relatados em bebês e crianças, a CCA nunca foi detectada nessa idade; todos os casos eram de pacientes acima de 50 anos.1

Junto com a hipertensão e a aterosclerose, outros fatores de risco incluíram postura curvada, arterite de Takayasu e arco bovino.3,14,15 Os sintomas variaram muito, com alguns dos casos assintomáticos e descobertos acidentalmente, enquanto outros pacientes se manifestaram com eventos cerebrovasculares ou cardiovasculares maiores. O encurtamento cirúrgico foi oferecido apenas para dois pacientes que apresentavam sintomas acentuados, disfagia refratária e AIT.5,6

Discussão

Os critérios básicos de nossa paciente são consistentes com os relatos anteriores, sendo uma mulher na sétima década de vida e hipertensa.5,10

Que seja de nosso conhecimento, apenas um caso publicado tem o mesmo padrão anatômico que o da nossa paciente, que foi relatado por Yildiz et al., o qual apresentava tortuosidade bilateral da ACC e arco bovino.15 Entretanto, os ângulos agudos formados pela ACC em nossa paciente definem a sua anomalia como kinking, em vez de tortuosidade. Além disso, a queixa apresentada era de um edema cervical pulsátil sem disfagia. Os dois casos relatados com kinking tinham lesão tumorals cervicais semelhantes.9,10

A prevalência de acometimento da ACCD foi historicamente explicada pela origem inferior da ACC esquerda com um comprimento mais longo e menor probabilidade de kinking.8 A distribuição bilateral foi encontrada apenas em nosso caso e no caso relatado por Yildiz et al.15 e ambos tinham um padrão de arco bovino associado. Isso pode ser explicado pela origem mais elevada da ACCE, visto que ela se origina do tronco braquiocefálico, de modo que o comprimento da artéria ocupará um espaço menor, tornando‐a propensa à ocorrência de kinking (fig. 4).

Figura 4.

Ilustração do modelo da anatomia variante no caso estudado.

(0,13MB).

A paciente estudada não recebeu tratamento clínico ou cirúrgico específico, considerando a natureza benigna da doença e a ausência de qualquer compressão ou sintomas neurológicos, o que é consistente com Chen et al.9 Ainda assim, ela foi orientada a fazer acompanhamento por consultas regulares devido ao risco de desenvolvimento de complicações cerebrovasculares ou cardiovasculares.17

O reconhecimento dessas anomalias é vital, especialmente em intervenções cirúrgicas e endovasculares que envolvam o arco aórtico. Aboulhoda et al. enfatizaram a importância da avaliação angiográfica pré‐operatória da anatomia do arco aórtico para evitar potenciais complicações.18 Além disso, um diagnóstico errado pode levar a consequências fatais. Chen et al. descreveram um caso de kinking da ACCD, que foi erroneamente diagnosticada como lesão tumoral tireoidiana e encaminhada para biópsia.9 Outros relatos conseguiram explicar alguns sintomas confusionais após a exclusão de causas comuns, como disfagia, síncope e AIT.5,6

Foi relatado que outras variantes posicionais podem causar lesão cervical pulsátil. Wong et al. relataram o caso de um paciente com tronco braquiocefálico alto que se apresentava com uma lesão tumoral cervical pulsátil.19 Apresentações semelhantes foram associadas a arco aórtico cervical, como no caso descrito por Rao et al.20

Conclusão

Embora raro, o kinking da ACC deve ser considerado no diagnóstico de uma lesão tumoral cervical pulsátil. A condição pode coexistir com um padrão de arco bovino, aumenta a complexidade da anatomia do arco aórtico, o que pode representar um obstáculo durante determinadas intervenções cirúrgicas e endovasculares; portanto, um planejamento pré‐operatório adequado é obrigatório. A condição é benigna e não requer tratamento específico, desde que não produza complicações.

Conflitos de interesse

Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

Referências
[1]
J. Yu, L. Qu, B. Xu, S. Wang, C. Li, X. Xu, et al.
Current Understanding of Dolichoarteriopathies of the Internal Carotid Artery: A Review.
Int J Med Sci., 14 (2017), pp. 772-784
[2]
T.J. Leipzig, G.J. Dohrmann.
The tortuous or kinked carotid artery: pathogenesis and clinical considerations. A historical review.
Surg Neurol., 25 (1986), pp. 478-486
[3]
H. Kawano, K. Toyoda, R. Otsubo, T. Hishikawa, K. Minematsu.
Tortuous carotid artery lumens in Takayasu's arteritis.
J Stroke Cerebrovasc Dis., 18 (2009), pp. 403-404
[4]
A. Gupta, M.C. Winslet.
Tortuous common carotid artery as a cause of dysphagia.
J R Soc Med., 98 (2005), pp. 275-276
[5]
H.L. Peter, L.B. Ruth, P. Reddy, A. Lumsden.
An Unusual Cause of Dysphagia: Coil of the Proximal Common Carotid Artery: A Case Report.
J Vasc Endovasc Surg., 34 (2000), pp. 521-526
[6]
D.J. Milic, M.M. Jovanovic, S.S. Zivic, R.J. Jankovic.
Coiling of the left common carotid artery as a cause of transient ischemic attacks.
J Vasc Surg., 45 (2007), pp. 411-413
[7]
J. Haynes, K.R. Arnold, C. Aguirre-Oskins, S. Chandra.
Evaluation of neck masses in adults.
Am Fam Physician., 91 (2015), pp. 698-706
[8]
M.S. Godin, J.C. Rice, M.D. Kerstein.
Tortuosity of the right common carotid artery simulating aneurysm.
South Med J., 81 (1988), pp. 1382-1385
[9]
P.J. Chen, H.C. Chen.
Tortuous Common Carotid Artery Masquerading as Thyroid Mass.
Clin Surg., 3 (2018), pp. 2070
[10]
T. Nakamoto, Y. Suei, M. Konishi, T. Kanda, R.G. Verdonschot, N. Kakimoto.
Abnormal positioning of the common carotid artery clinically diagnosed as a submandibular mass.
Oral Radiol., 35 (2019), pp. 331-334
[11]
G. Choi, S.H. Han, J.O. Choi.
Tortuous common carotid artery encountered during neck dissection.
Eur Arch Otorhinolaryngol., 255 (1998), pp. 269-270
[12]
J. Iwanaga, K. Watanabe, S. Tsuyoshi, Y. Tabira, K.I. Yamaki.
Tortuous Common Carotid Artery: A Report of Four Cases Observed in Cadaveric Dissections.
Case Rep Otolaryngol., 2016 (2016), pp. 2028402
[13]
P. Popieluszko, B.M. Henry, B. Sanna, W.C. Hsieh, K. Saganiak, P.A. Pękala, et al.
A systematic review and meta‐analysis of variations in branching patterns of the adult aortic arch.
J Vasc Surg., 68 (2018), pp. 298-306
[14]
K. Tsunoda, S. Ishimoto, J. Aikawa, M. Shinogami, R. Murakami, H. Saigusa, et al.
Bent (head‐down) posture and aberrant common carotid arteries of the neck: another new risk factor for stroke?.
Laryngoscope., 115 (2005), pp. 2074-2075
[15]
S. Yildiz, H. Cece, S. Karayol, Z. Ziylan.
Concurrence of the tortuosity of bilateral common and left internal carotid arteries in a case with common origin of the innominate trunk and left common carotid artery.
Surg Radiol Anat., 32 (2010), pp. 797-799
[16]
S. Katsanos, K. Katogiannis, J. Parissis.
Syncope in a patient with tortuous right common carotid artery.
Hippokratia., 21 (2017), pp. 160
[17]
M. Iwai-Takano, T. Watanabe, T. Ohira.
Common carotid artery kinking is a predictor of cardiovascular events: A long‐term follow‐up study using carotid ultrasonography.
Echocardiography., 36 (2019), pp. 2227-2233
[18]
B.E. Aboulhoda, R.K. Ahmed, A.S. Awad.
Clinically‐relevant morphometric parameters and anatomical variations of the aortic arch branching pattern.
Surg Radiol Anat., 41 (2019), pp. 731-744
[19]
B. Wong, S. Gopalan, M. Abu Bakar, M. Wong.
High riding of brachiocephalic artery: A rare case of pulsatile anterior neck mass.
Egyptian Journal of Ear, Nose, Throat and Allied Sciences. 2017., 18 (2017), pp. 291-293
[20]
D.P. Rao, R. Ananthakrishna, M.C. Nanjappa.
Pulsatile neck mass: A rare cause.
Ann Pediatr Cardiol., 6 (2013), pp. 95-96

Como citar este artigo: Abdelaty MH. Common carotid artery kinking associated with bovine arch: a case report and review of literature. Braz J Otorhinolaryngol. 2021;87:753–7.

A revisão por pares é da responsabilidade da Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico‐Facial.

Copyright © 2020. Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial
Idiomas
Brazilian Journal of Otorhinolaryngology

Receba a nossa Newsletter

Opções de artigo
Ferramentas
Material Suplementar
en pt
Announcement Nota importante
Articles submitted as of May 1, 2022, which are accepted for publication will be subject to a fee (Article Publishing Charge, APC) payment by the author or research funder to cover the costs associated with publication. By submitting the manuscript to this journal, the authors agree to these terms. All manuscripts must be submitted in English.. Os artigos submetidos a partir de 1º de maio de 2022, que forem aceitos para publicação estarão sujeitos a uma taxa (Article Publishing Charge, APC) a ser paga pelo autor para cobrir os custos associados à publicação. Ao submeterem o manuscrito a esta revista, os autores concordam com esses termos. Todos os manuscritos devem ser submetidos em inglês.