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Vol. 85. Núm. 3.
Páginas 267-274 (Maio - Junho 2019)
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Vol. 85. Núm. 3.
Páginas 267-274 (Maio - Junho 2019)
Artigo Original
DOI: 10.1016/j.bjorlp.2019.04.001
Open Access
Protective effect of gallic acid against cisplatin‐induced ototoxicity in rats
Efeito protetor do ácido gálico contra a ototoxicidade induzida por cisplatina em ratos
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Korhan Kilica,
Autor para correspondência
korhankilic@gmail.com

Autor para correspondência.
, Muhammed Sedat Sakata, Fazile Nur Ekinci Akdemirb, Serkan Yildirimc, Yavuz Selim Saglamc, Seda Askind
a Ataturk University, Faculty of Medicine, Department of Otorhinolaryngology, Erzurum, Turquia
b Agri Ibrahim Cecen University, High School of Health, Department of Nutrition and Dietetics, Agri, Turquia
c Ataturk University, Faculty of Veterinary, Department of Pathology, Erzurum, Turquia
d Ataturk University, Faculty of Medicine, Department of Biochemistry, Erzurum, Turquia
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Tabela 1. Achados histopatológicos da cóclea
Abstract
Introduction

Cisplatin is an antineoplastic agent widely used in the treatment of a variety of cancers. Ototoxicity is one of the main side‐effects restricting the use of cisplatin.

Objective

The purpose of this study was to investigate the protective efficacy of gallic acid, in biochemical, functional and histopathological terms, against ototoxicity induced by cisplatin.

Methods

Twenty‐eight female Sprague Dawley rats were included. Rats were randomly assigned into four groups of seven animals each. Cisplatin group received a single intraperitoneal dose of 15mg/kg cisplatin. Gallic acid group received intraperitoneal gallic acid at 100mg/kg for five consecutive days. Cisplatin+gallic acid group received intraperitoneal gallic acid at 100mg/kg for five consecutive days and a single intraperitoneal dose of 15mg/kg cisplatin at 3rd day. A control group received 1mL intraperitoneal saline solution for five consecutive days. Prior to drug administration, all rats were exposed to the distortion product otoacoustic emissions test. The test was repeated on the 6th day of the study. All rats were then sacrificed; the cochleas were removed and set aside for biochemical and histopathological analyses.

Results

In cisplatin group, Day 6 signal noise ratio values were significantly lower than those of the other groups. Also, malondialdehyde levels in cochlear tissues were significantly higher, superoxide dismutase and glutathione peroxidase activities were significantly lower compared to the control group. Histopathologic evaluation revealed erosion in the stria vascularis, degeneration and edema in the connective tissue layer in endothelial cells, impairment of outer hair cells and a decrease in the number of these calls. In the cisplatin+gallic acid group, this biochemical, histopathological and functional changes were reversed.

Conclusion

In the light of our findings, we think that gallic acid may have played a protective role against cisplatin‐induced ototoxicity in rats, as indicated by the distortion product otoacoustic emissions test results, biochemical findings and immunohistochemical analyses.

Keywords:
Cisplatin‐induced ototoxicity
Gallic acid
Oxidative stress
DPOAE
Resumo
Introdução

A cisplatina é um agente antineoplásico amplamente usado no tratamento de vários tipos de câncer. A ototoxicidade é um dos principais efeitos colaterais que restringem o uso da cisplatina.

Objetivo

O objetivo deste estudo foi investigar a eficácia protetora do ácido gálico, em termos bioquímicos, funcionais e histopatológicos, contra a ototoxicidade induzida por cisplatina.

Método

Vinte e oito ratas Sprague‐Dawley foram incluídas. As ratas foram distribuídas aleatoriamente em quatro grupos de sete animais cada. O grupo cisplatina recebeu uma única dose intraperitoneal de 15mg/kg de cisplatina. O grupo ácido gálico recebeu ácido gálico via intraperitoneal a uma dose de 100mg/kg durante cinco dias consecutivos. O grupo cisplatina+ácido gálico recebeu ácido gálico via intraperitoneal a uma dose de 100mg/kg durante cinco dias consecutivos e uma única dose intraperitoneal de 15mg/kg de cisplatina no terceiro dia. O grupo controle recebeu 1mL de solução salina via intraperitoneal por cinco dias consecutivos. Antes da administração do fármaco, todos os ratos foram expostos ao teste de emissões otoacústicas – produto de distorção. O teste foi repetido no sexto dia do estudo. Todos os ratos foram então sacrificados; as cócleas foram removidas e reservadas para análises bioquímicas e histopatológicas.

Resultados

No grupo cisplatina, os valores da relação sinal-ruído do dia 6 foram significativamente mais baixos aos dos outros grupos. Além disso, os níveis de malondialdeído nos tecidos cocleares foram significativamente mais altos, e as atividades de superóxido dismutase e glutatione peroxidase foram significativamente mais baixas em comparação com o grupo controle. A avaliação histopatológica revelou erosão na estria vascular, degeneração e edema na camada de tecido conjuntivo em células endoteliais, comprometimento das células ciliadas externas e diminuição do número dessas células. No grupo cisplatina + ácido gálico, estas alterações bioquímicas, histopatológicas e funcionais foram revertidas.

Conclusão

Tendo em vista os nossos achados, consideramos que o ácido gálico pode ter desempenhado um papel protetor contra a ototoxicidade induzida por cisplatina em ratas, conforme indicado pelos resultados do teste emissões otoacústicas – produto de distorção, achados bioquímicos e análises imuno‐histoquímicas.

Palavras‐chave:
Ototoxicidade induzida por cisplatina
Ácido gálico
Estresse oxidativo
EOAPD
Texto Completo
Introdução

A cis‐diaminedicloroplatina (cisplatina) é um agente quimioterapêutico amplamente usado no tratamento do câncer desde que foi aprovado pela Federal Drug Administration em 1978. A importância das complicações em longo prazo associadas a quimioterápicos tem crescido à medida que as taxas de sobrevida em pacientes com câncer melhoram. Efeitos secundários como ototoxicidade, nefrotoxicidade e neurotoxicidade são observados após a quimioterapia com cisplatina. Perda auditiva com taxas de 30% e 100% foi relatada em associação com a ototoxicidade induzida por cisplatina.1 Essa perda auditiva resulta em diminuições multifacetadas na qualidade de vida e pode afetar o desenvolvimento social e acadêmico, particularmente em crianças.2

A ototoxicidade induzida por cisplatina envolve perda auditiva bilateral e simétrica em frequências altas. Essas perdas podem ser permanentes e irreversíveis e são frequentemente associadas a zumbido.3 A gravidade dessa perda auditiva está relacionada à frequência da aplicação do fármaco e sua dosagem. Não foram descobertos outros métodos com o objetivo de reduzir a ototoxicidade relacionada à cisplatina, além de reduzir a sua dosagem ou modificar os regimes quimioterápicos, com o uso dos que não contêm cisplatina. Esses dois métodos podem ter impactos adversos nos resultados do tratamento. Portanto, vários estudos investigaram agentes capazes de prevenir a ototoxicidade induzida por cisplatina. Vários agentes antioxidantes, inclusive D‐metionina, alopurinol, flunarizina, curcumina e luteína, já foram usados com esse propósito em estudos experimentais.4–8

O ácido gálico é um ácido tri‐hidroxibenzóico, um ácido fenólico encontrado em inúmeras plantas medicinais e alimentos. Sabe‐se há muito tempo que ele tem poderosos efeitos antioxidantes.9 Tem sido relatado que os ácidos fenólicos exercem os seus efeitos antioxidantes através da eliminação direta de radicais livres, pela inativação de enzimas responsáveis pela produção de espécies reativas de oxigênio (ROS) e aumento da ativação de enzimas antioxidantes.10

Que seja de nosso conhecimento, nenhum estudo anterior investigou o efeito protetor do ácido gálico contra a ototoxicidade induzida por cisplatina. O objetivo deste estudo foi investigar o efeito protetor do ácido gálico, em termos bioquímicos, funcionais e histopatológicos, contra a ototoxicidade induzida por cisplatina.

Material e métodoAnimais

A aprovação do estudo foi concedida pelo Comitê Local de Ética em Estudos com Animais da Ataturk University sob o número E.1700305147‐11:145. Vinte e oito ratas fêmeas Sprague‐Dawley com 220‐240g foram incluídas. O estudo foi conduzido de acordo com o Guia de Cuidados e Uso de Animais de Laboratório. Todas as ratas foram alojadas em gaiolas especiais com acesso ad libitum a comida e água, a uma temperatura estável de 22°±1°C e umidade de 45% ± 2%. O sistema de iluminação foi ajustado para um ciclo 12h claro/12h escuro.

Protocolo experimental

O ácido gálico usado no estudo foi obtido da Sigma‐Aldrich Chemical Company e a cisplatina da Kocak Pharma Co. (Kocak, Istambul, Turquia). As ratas foram distribuídas aleatoriamente em quatro grupos de sete animais cada.

Grupo 1 (Cisplatina): Recebeu uma única dose intraperitoneal de 15mg/kg de cisplatina.

Grupo 2 (Ácido Gálico): Recebeu ácido gálico intraperitoneal a 100mg/kg por cinco dias consecutivos.

Grupo 3 (Cisplatina + Ácido Gálico): Recebeu ácido gálico intraperitoneal a 100mg/kg por cinco dias consecutivos e uma única dose intraperitoneal de 15mg/kg de cisplatina no 3° dia.

Grupo 4 (Controle): Recebeu 1mL de solução salina intraperitoneal por cinco dias consecutivos.

Antes da administração do fármaco, todos as ratas foram submetidas ao exame otoscópico sob anestesia com 40mg/kg de cetamina e 10mg/kg de xilazina. Todas as ratas foram então expostas ao teste de emissões otoacústicas – produto de distorção (EOAPD). O teste EOAPD foi repetido no sexto dia do estudo sob o mesmo protocolo de anestesia. Todas as ratas foram então sacrificadas e os ossos temporais foram dissecados. As cócleas foram removidas e a cóclea direita foi reservada para análise bioquímica, enquanto a cóclea esquerda foi reservada para análise histopatológica.

Procedimento do teste EOAPD

As medidas do teste EOAPD foram feitas com um dispositivo Otometrics Madsen Capella. Esse dispositivo foi calibrado antes de cada medição. Antes da medição, todas as ratas foram anestesiadas com 40mg/kg de cloridrato de cetamina (Ketasol 10%, Richter Pharma Ag, Wels, Áustria) e 10mg/kg de xilazina (Alfazyne 2%, Alfasan International BV, Voerden, Países Baixos). Após a anestesia, as ratas foram submetidas a exame otoscópico. Sondas apropriadas foram colocadas nos meatos externos das orelhas direita e esquerda das ratas para fazer medições das EOAPD em uma sala silenciosa. As medidas foram obtidas sob a forma de PDgramas. A diferença entre os níveis de L1 e L2 foi mantida em 10dB NPS (nível de pressão sonora) (L1 = 65dB NPS, L2 = 55dB NPS). Para obter a melhor resposta, o teste foi ajustado para duas frequências separadas, f1/f2 = 1,22. As medidas de PDgramas foram feitas nas frequências de 2002, 2500, 3154, 4004, 5000, 6299, 7998 e 10.000Hz. Os valores da relação sinal‐ruído (RSR) de 3dB ou acima foram considerados positivos. Os valores da RSR obtidos durante o teste EOAPD foram comparados intra e entre os grupos.

Análise histopatológica

Os tecidos cocleares coletados para a análise histopatológica foram fixados por 48h em solução de formalina a 10%. Eles foram amolecidos por 96‐120h com a solução de descalcificação Osteosoft (Merc, HC313331, Alemanha) e subsequentemente lavados em água corrente. Então foram processados em álcool a 80% (12h × 2 vezes) e álcool a 90% (12h × 2 vezes), álcool a 96% (12h × 2 vezes), álcool a 100% (12h × 2 vezes), clorofórmio (5h × 3 vezes) e parafina líquida (12h) antes de ser embebidos em blocos de parafina. Cortes de 4μm de espessura foram obtidos de cada bloco e os espécimes foram montados em lâminas. As lâminas preparadas para o exame histopatológico foram então coradas pelo tricrômico de Masson e analisadas com um microscópio óptico. As lâminas investigadas sob microscopia óptica foram avaliadas com base nas lesões – nenhuma (‐), leve (+), moderada (++) e intensa (+++), e foram obtidas fotografias.

Análise imuno‐histoquímica

Todos os espécimes colocados em lâminas adesivas (poli‐L‐lisina) para exame de imunoperoxidase foram submetidos a séries de xilol e álcool, deparafinados e desidratados. O procedimento foi feito de acordo com as recomendações do kit Ab80436. A caspase‐3 foi usada como anticorpo primário. Após o procedimento de lavagem, o cromógeno 3,3 Diaminobenzidine (DAB) foi colocado sobre o espécime e deixado em repouso por cinco a 10 minutos para absorver o cromógeno. Após a imersão na hematoxilina de Mayer durante um a dois minutos para a coloração do fundo, os espécimes foram lavados sob água corrente. As lâminas foram então submetidas a séries de álcool e xilol, cobertas e examinadas sob um microscópio óptico (Leica DM 1000). A imunopositividade dos espécimes foi classificada como nenhuma (‐), leve (+), moderada (++) ou intensa (+++).

Análise bioquímica

As cócleas reservadas para análise bioquímica foram lavadas com solução salina fisiológica imediatamente após a excisão e depois congeladas a ‐80°C. No dia do estudo, elas foram removidas do freezer, descongeladas e homogeneizadas com uma solução de 9mL por grama de 1,15% de KCl. Os homogeneizados foram centrifugados a 10.000rpm por 30min para a separação do sobrenadante.

O método espectrofotométrico descrito por Sun et al. foi usado para análise do superóxido dismutase (SOD).11 Essa técnica é baseada na redução do tetrazólio nitroazul (NBT) pela xantina oxidase, produtora de superóxido a 560nm. A atividade do SOD foi expressa como U/L.

A medida do malondialdeído (MDA) foi feita com a técnica do ácido tiobarbitúrico (TBA), descrita por Ohkawa e Yagi.12 Essa é baseada na análise espectrofotométrica do cromógeno de cor rosa resultante da reação entre MDA e TBA. Os resultados foram expressos como nmoL/mL.

A glutationa peroxidase (GPx) foi medida com uma modificação do método descrito por Paglia e Valentine.13 A GPx é uma enzima que produz a oxidação da glutationa em uma reação na qual o peróxido de hidrogênio é reduzido a água. A glutationa oxidada é novamente reduzida a glutationa com a enzima glutationa redutase na presença de NADPH. O método baseia‐se na medição espectrofotométrica da diminuição da absorbância de NADPH a 340nm. A atividade da GPx foi expressa como UI/L.

Análise estatística

A análise estatística foi feita com o software SPSS 17.0. A análise de variância de um fator (One‐Way Anova) foi usada na análise estatística de parâmetros distribuídos normalmente e o teste post‐hoc de Tukey foi usado para identificar fontes de variação. O teste não paramétrico de Kruskal‐Wallis foi usado para analisar variações entre os dados obtidos com o uso do método semiquantitativo no exame histopatológico. As análises entre dois grupos foram feitas com o teste U de Mann‐Whitney. Um valor de p < 0,05 foi considerado estatisticamente significante.

Resultados

Não houve diferença significativa entre os grupos em termos de valores de RSR nos resultados do teste EOAPD no primeiro dia do estudo. Também não houve diferença entre os valores de RSR das orelhas direita e esquerda. Quando os resultados do EOAPD no dia 6 foram comparados com os achados do dia 1, nenhuma variação significante foi observada nos valores de RSR nos Grupos 2, 3 ou 4. No Grupo 1, os valores de RSR no dia 1 foram significativamente maiores do que aqueles do dia 6 em todas as frequências estudadas. Isso mostra que a cisplatina exerce um efeito adverso nas funções auditivas ao afetar a cóclea.

Quando os resultados do teste EOAPD no dia 6 foram comparados entre si, os valores de RSR no Grupo 1 foram significativamente menores do que nos outros grupos. Nenhuma variação significativa foi determinada entre os valores de RSR nos Grupos 2, 3 e 4. Esses achados mostram que o uso de ácido gálico com cisplatina impediu o comprometimento nos valores de RSR e demonstrou proteção funcional contra o efeito ototóxico da cisplatina (figs. 1‐2).

Figura 1.

Resultados do teste EOAPD dos grupos no Dia 1.

(0,13MB).
Figura 2.

Resultados do teste EOAPD dos grupos no Dia 6.

(0,13MB).

Os resultados da análise bioquímica das cócleas de ratos são mostrados na figura 3. Os níveis de MDA nos tecidos cocleares no Grupo 1 foram significativamente maiores em comparação com o grupo controle. Ao mesmo tempo, as atividades de SOD e GPx nos tecidos cocleares diminuíram significantemente em comparação com o grupo controle. Isso mostra que o estresse oxidativo ocorreu nas cócleas dos ratos que receberam cisplatina e que esse estresse se manifesta com um aumento nas quantidades de radicais livres de oxigênio emergindo com um aumento da peroxidação lipídica, bem como uma diminuição das atividades enzimáticas antioxidantes. Não houve variação significativa entre os níveis de MDA, atividade de SOD e GPx em ratos dos Grupos 2, 3 e 4. Além disso, os níveis de MDA nas cócleas de ratos do Grupo 3, aqueles que receberam ácido gálico juntamente com cisplatina, foram significantemente menores do que os níveis encontrados nos ratos no Grupo 1, aqueles que receberam apenas cisplatina, enquanto as atividades de SOD e GPx foram significantemente maiores. Isso mostra que o ácido gálico também protege contra o estresse oxidativo causado pelo efeito ototóxico da cisplatina.

Figura 3.

Resultados bioquímicos.

(0,08MB).

No exame histopatológico, as cócleas dos animais dos grupos controle e ácido gálico exibiram um aspecto histológico normal (figs. 4A‐C). O exame da cóclea no grupo cisplatina revelou erosão na estria vascular e degeneração e edema na camada do tecido conjuntivo nas células endoteliais. A estrutura das células ciliadas externas foi prejudicada e uma diminuição no número dessas células também foi observada (fig. 4B). O exame das cócleas no grupo Cis + ácido gálico revelou hiperemia leve na estria vascular, degeneração em células epiteliais e degeneração muito leve nos gânglios espinhais (fig. 4D). Esses achados diminuíram de forma estatisticamente significante no grupo Cis + ácido gálico em comparação com o grupo cisplatina (p < 0,05). Os achados histopatológicos da cóclea estão resumidos na tabela 1.

Figura 4.

Aparência histopatológica da cóclea, H&E, escala: 50μm. (A) Grupo Controle, estrutura histopatológica normal da cóclea (seta, estria vascular, ponta da seta, células ciliadas externas). (B) Grupo Cisplatina, hiperemia (setas mais finas), degeneração e erosão (setas mais grossas) na estria vascular, diminuição do número de células ciliadas externas (pontas de setas). (C) Grupo Ácido gálico, estrutura histopatológica normal da cóclea (seta, estria vascular, ponta da seta, células ciliadas externas). (D) Grupo Cisplatina + ácido gálico, hiperemia leve na estria vascular (setas), estrutura histopatológica normal de células ciliadas externas com diminuição moderada do número dessas células (ponta de seta).

(0,4MB).
Tabela 1.

Achados histopatológicos da cóclea

  Hiperemia, degeneração e necrose na estria vascular  Degeneração dos gânglios espinhais  Diminuição do número de células ciliadas externas  Imunopositividade da caspase‐3 
Grupo Controle  ‐  ‐  ‐  ‐ 
Grupo Ácido gálico  ‐  ‐  ‐  ‐ 
Grupo Cisplatina  +++  +++  +++  +++ 
Cis + ácido gálico  ++ 

A coloração da Caspase‐3 foi feita para determinar a apoptose nas células. Não foi observada imunopositividade para Caspase‐3 na coloração coclear nos grupos controle ou ácido gálico (fig. 5A‐C). No grupo cisplatina, foi observada imunopositividade intraplasmática intensa nas células ciliadas externas (fig. 5B). No grupo Cis + ácido gálico, a expressão intraplasmática leve de caspase‐3 foi determinada em células ciliadas externas (fig. 5 D). Uma diminuição estatisticamente significativa foi determinada em comparação com o grupo cisplatina (p < 0,05). Os achados imuno‐histoquímicos estão resumidos na tabela 1.

Figura 5.

Análise imuno‐histoquímica da cóclea, IP, escala: 5μm. (A) Grupo Controle, expressão negativa da Caspase‐3 nas células ciliadas externas. (B) Grupo Cisplatina, imunopositividade intensa da Caspase‐3 nas células ciliadas externas (setas). (C) Grupo ácido gálico, expressão negativa da Caspase‐3 nas células ciliadas externas. (D) Grupo Cisplatina + ácido gálico, imunopositividade leve da Caspase‐3 nas células ciliadas externas (setas).

(0,29MB).
Discussão

Nosso estudo demonstrou claramente a proteção eficaz do ácido gálico contra a ototoxicidade induzida por cisplatina. Foi determinado que o ácido gálico, tanto bioquímica quanto histopatologicamente, evita o estresse oxidativo na cóclea após a administração de cisplatina. Os achados do teste EOAPD também mostraram que o ácido gálico exerce um efeito protetor contra a perda auditiva associada à ototoxicidade induzida por cisplatina.

A cisplatina é um agente antineoplásico amplamente usado no tratamento de vários tipos de câncer. Os principais efeitos colaterais desse agente são nefrotoxicidade, neurotoxicidade e ototoxicidade. Embora a nefrotoxicidade possa ser controlada através de hidratação, a ototoxicidade permanece o efeito colateral mais significativo do uso da cisplatina.8 O mecanismo pelo qual a cisplatina leva à ototoxicidade ainda não é totalmente compreendido. Estudos anteriores mostraram que a cisplatina leva a perdas auditivas ao causar um impacto em várias áreas da cóclea. O achado histopatológico que mais chamou a atenção foi a degeneração das células ciliadas. O dano que se inicia nas ligações das extremidades dos estereocílios das células ciliadas externas leva gradualmente à perda de todas essas mesmas células. Essa perda começa na extremidade basal e avança até o ápice. Além disso, causa colapso na membrana de Reissner e atrofia nas células de suporte do órgão de Corti e na estria vascular.14,15 Em nosso estudo, o exame histopatológico da cóclea no grupo cisplatina revelou erosão na estria vascular, degeneração e edema na camada de tecido conjuntivo em células endoteliais, comprometimento da estrutura das células ciliadas externas e diminuição do número dessas células.

A fisiopatologia desse dano na cóclea em nível molecular e celular ainda não é totalmente compreendida, embora se acredite que o estresse oxidativo seja o principal agente. A cisplatina inicia inúmeros processos fisiopatológicos na cóclea ao aumentar a produção de ROS e suprimir sistemas de enzimas antioxidantes. O aumento do estresse oxidativo na cóclea aumenta a peroxidação das membranas lipídicas, inativa importantes enzimas celulares e compromete as funções do canais iônicos. Finalmente, o aumento da produção de ROS leva a processos histopatológicos e deficiências funcionais na cóclea ao causar apoptose e morte celular necrótica.16 Em nosso estudo, a coloração para caspase‐3 foi feita para determinar a apoptose nas células. Foi observada imunopositividade intraplasmática intensa nas células ciliadas externas dos ratos no grupo cisplatina.

A cóclea tem um mecanismo eficaz de defesa antioxidante que contém agentes antioxidantes tais como vitamina C, vitamina E e glutationa (GSH) e enzimas como SOD, GPx e Catalase (CAT).17 O SOD catalisa a conversão de O2 para H2O2 e O2, enquanto a CAT converte H2O2 em O2 e H2O. A GPx reduz o H2O2 e talvez outros peróxidos. Além disso, a GPx também acelera a conversão de GSH reduzida para sua forma oxidada (GSSG) durante a desintoxicação de H2O2.16 Se esse sistema de eliminação de ROS estiver comprometido, as ROS levam à peroxidação lipídica e danos celulares. Isso se manifesta através de altos níveis de MDA. Os níveis de MDA foram significativamente maiores nas cócleas de ratos que receberam cisplatina, em comparação com o grupo controle em nosso estudo. No entanto, as atividades de SOD e GPx nos tecidos cocleares de ratos que receberam cisplatina foram significativamente menores do que as do grupo controle. Esses achados mostram que o estresse oxidativo está envolvido no dano coclear que ocorre na ototoxicidade induzida por cisplatina.

Considerando esses processos fisiológicos, uma das hipóteses seria que a redução dos níveis de ROS e níveis crescentes de enzimas antioxidantes possam ser protetores contra a ototoxicidade induzida por cisplatina. Vários agentes antioxidantes têm sido investigados na ototoxicidade induzida por cisplatina. O objetivo do nosso estudo foi determinar se o ácido gálico, um poderoso antioxidante, exibiria um efeito protetor contra a ototoxicidade induzida por cisplatina.

O ácido gálico é um composto poli‐hidroxifenólico encontrado em várias plantas, frutas e gêneros alimentícios. Ele também ocorre naturalmente em várias plantas terrestres e aquáticas18 e exibe poderosos efeitos anticancerígenos, antimutagênicos e anti‐inflamatórios.19 O ácido gálico e seus derivados são poderosos antioxidantes capazes de eliminar radicais livres, como ânions superóxidos, peróxido de hidrogênio (H2O2), radicais hidroxilo e ácido hipocloroso.19 Foi sugerido que essa atividade de eliminação de radicais livres poderia explicar o efeito benéfico do ácido gálico sobre o estresse oxidativo.

Oyagbemi et al. mostraram que o ácido gálico melhora o estresse oxidativo, suprime a produção de ROS no cérebro de ratos e melhora o estado antioxidante.20 Prince et al. relataram que o ácido gálico aumentou a atividade das enzimas dependentes de SOD, CAT e GSH em dano cerebral diabético induzido com estreptozotocina e impediu a formação de radicais livres.21 Omobowale et al. também relataram que o ácido gálico exibiu um efeito protetor contra o dano hepático na hepatotoxicidade induzida por doxorrubicina.22 Li et al. investigaram as substâncias antioxidantes que melhor preveniram o estresse oxidativo induzido experimentalmente no tecido ovariano. Eles concluíram que o ácido gálico funcionou como um poderoso antioxidante, reduziu a produção de ROS e ativou o sistema de enzimas antioxidantes.23 Foi sugerido em nosso estudo que a administração de ácido gálico junto com a cisplatina demonstrou uma proteção bioquímica e histopatológica significativa contra ototoxicidade induzida por cisplatina, atuou como um poderoso antioxidante.

O teste EOAPD é um método objetivo que evoca resultados funcionais dos danos que ocorrem na cóclea de uma forma rápida, não dispendiosa e não‐invasiva. Com base em nossas respostas ao teste EOAPD, observou‐se comprometimento significativo nos valores de RSR em altas frequências em ratos que receberam cisplatina em comparação com aqueles no grupo controle. Além disso, observamos valores de RSR significativamente maiores em ratos que receberam ácido gálico em conjunto com cisplatina quando comparados com o grupo de ratos que recebeu somente cisplatina. Isso mostra que o ácido gálico também apresenta um efeito protetor funcional contra a ototoxicidade induzida com cisplatina.

Conclusão

Tendo em vista os nossos achados, consideramos que o ácido gálico pode ter desempenhado um papel protetor contra a ototoxicidade induzida por cisplatina em ratas, conforme indicado pelos resultados das EOAPD, achados bioquímicos e análises imuno‐histoquímicas. Embora nossos resultados indiquem que o ácido gálico pode reduzir a ototoxicidade induzida por cisplatina em ratos, sua utilidade no cenário clínico permanece incerta. São necessários mais estudos para determinar as indicações e doses apropriadas de ácido gálico antes que sua utilização clínica contra a ototoxicidade induzida por cisplatina possa ser recomendada.

Conflitos de interesse

Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

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Como citar este artigo: Kilic K, Sakat MS, Akdemir FN, Yildirim S, Saglam YS, Askin S. Protective effect of gallic acid against cisplatin‐induced ototoxicity in rats. Braz J Otorhinolaryngol. 2019;85:267–74.

A revisão por pares é da responsabilidade da Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico‐Facial.

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