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Vol. 87. Núm. 4.
Páginas 377-378 (Julho - Agosto 2021)
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Vol. 87. Núm. 4.
Páginas 377-378 (Julho - Agosto 2021)
Editorial
DOI: 10.1016/j.bjorlp.2021.04.001
Open Access
Monitoramento de casos de anosmia pode ajudar a controlar a pandemia de Covid‐19
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Marcel Menon Miyakea,b,
Autor para correspondência
drmarcel@clinicamenon.com.br

Autor para correspondência.
, Wilma Terezinha Anselmo‐Limab
a Hospital da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, Departamento de Otorrinolaringologia, São Paulo, SP, Brasil
b Universidade de São Paulo (USP), Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP), Ribeirão Preto, SP, Brasil
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Uma das dificuldades mais significativas que os governos em todo o mundo têm enfrentado durante a pandemia de Covid‐19 é a falta de dados precisos e rápidos sobre a evolução dos pacientes infectados. Principalmente no Brasil, o acesso limitado ao teste de RT‐PCR (real time‐polymerase chain reaction) para grande parte da população e a dificuldade de armazenamento e processamento das amostras resultam em subnotificação e atraso nos casos de estatísticas oficiais. A falta de conhecimento dos dados reais da evolução da pandemia torna imensamente difícil a tomada de decisões políticas. O rastreamento preciso dos pacientes permitiria prever o crescimento da pandemia com alguma confiança nos dias e semanas seguintes. Contribuiria também para o bom planejamento das unidades de saúde em uma escalada iminente de internações. Um planejamento adequado seria essencial para estabelecer critérios claros para a intensificação ou flexibilização das medidas restritivas à circulação, como já discutido e criticado no ano passado.

O monitoramento de pacientes com alterações bruscas de olfato e paladar pode ser uma ferramenta essencial para complementar e maximizar o sistema de vigilância de novos casos de Covid‐19. O início da pandemia da Covid‐19 mostrou que a disosmia, associada ou não à disgeusia, era um sintoma frequente em pacientes com Covid‐19, com prevalência estimada de 62%.1 Além disso, essas alterações sensoriais ocorrem, em geral, mais precocemente e são mais específicas do que outros sintomas, como tosse seca e febre. Alterações repentinas no olfato e paladar também podem estar associadas a diferentes causas, mas esses sintomas no contexto atual são preditivos para o vírus SARS‐Cov‐2. A perda súbita do olfato apresenta 65% e 97% de sensibilidade e especificidade, respectivamente, no diagnóstico de Covid‐19.2 Essas taxas são comparáveis às taxas obtidas pelo teste de RT‐PCR (87% e 97%).3 Portanto, isso representa uma vantagem quando se considera a limitação de recursos e disponibilidade dos testes de RT‐PCR para SARS‐Cov‐2. Além disso, os pacientes devem fazer o teste num intervalo de tempo limitado.

Com base nessas informações, em artigo publicado em outubro de 2020 na Nature Communications,4 Pierron et al. sugerem que alterações repentinas do olfato podem representar um marcador preditivo precoce da evolução dos casos de Covid‐19. Com mais de 6.500 pacientes incluídos, o estudo conduzido na França, Itália e Inglaterra observou uma forte correlação entre o aumento de pacientes com alterações olfativas e gustativas súbitas e o número de casos hospitalizados, hospitalização em unidade de terapia intensiva e mortalidade associada à Covid‐19. Além disso, o número de novos casos de disosmia súbita foi um indicador capaz de prever a resposta às medidas restritivas mais precocemente, apresentou um pico no número de casos novos 4 dias após a implantação do lockdown, do que os índices atualmente usados, como o número de atendimentos de urgência que atingiu o ápice após 11 dias de lockdown e o número de hospitalizações em unidades de emergência, que atingiu o pico somente após 14 dias. Ao comparar a evolução das alterações de olfato na França e Itália e na Inglaterra, os dois primeiros países com decretos mais restritivos alcançaram uma queda abrupta no registro de novos casos de disosmia súbita após o lockdown em relação ao terceiro, que apresentou um quadro mais gradual de redução de casos, presumivelmente devido à política restritiva menos rígida.

Assim, o número de novos casos de disosmia súbita e disgeusia representa um marcador de alta especificidade, minimamente invasivo e de baixo custo no diagnóstico da Covid‐19, além de apresentar alta capacidade de capilaridade em grande parte da população em um curto período. A variação no número de novos casos de alterações olfatórias ao longo dos dias também pode ser um indicador de fundamental importância para estimar a evolução da pandemia nos dias e semanas seguintes, além de ser capaz de detectar precocemente o impacto de medidas restritivas de circulação e eventos específicos, como reuniões em datas festivas, no número de casos da Covid‐19. Mesmo com o início da vacinação de nossa população, o controle efetivo da Covid‐19 não será imediato, é imprescindível que, nesse período, continuemos a evoluir e aplicar novas estratégias para minimizar o impacto dessa doença em nossa sociedade. A adoção de um sistema unificado de notificação autorrelatada de novos casos de disosmia ou disgeusia súbita na internet, com a contribuição de otorrinolaringologistas e médicos de linha de frente, criaria um banco de dados substancial e de baixo custo, que ajudaria no rastreamento e no combate à pandemia. Esse sistema com informações precisas e atualizadas permitiria uma atuação mais efetiva das autoridades sanitárias no potencial aumento do número de novos casos, minimizaria os efeitos da superlotação das unidades de saúde. Além disso, o planejamento estratégico de intensificação e relaxamento de medidas restritivas de circulação seria mais eficiente. É possível, por um lado, controlar a escalada no número de casos e hospitalizações e, por outro, evitar medidas demasiadamente rigorosas e prolongadas, como o fechamento do comércio e de outras atividades, que impactaram o desempenho socioeconômico em 2020.

Conflitos de interesse

Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

Referências
[1]
J. Rocke, C. Hopkins, C. Philpott, N. Kumar.
Is the loss of sense of smell a diagnostic marker in COVID‐19: A systematic review and meta‐analysis.
Clin Otolaryngol., 45 (2020), pp. 914-922
[2]
A. Hahner, J. Graf, S. Dräger, K. De With, T. Hummel.
Predictive value of sudden olfactory loss in the diagnosis of COVID‐19.
ORL J Otorhinolaryngol Relat Spec., 82 (2020), pp. 175-180
[3]
B. George, J. McGee, E. Giangrasso, S. Finkelstein, S. Wu, A.E. Glatt.
What is the predictive value of a single nasopharyngeal SARS‐CoV‐2 PCR swab test in a patient with COVID‐like symptoms and/or significant COVID‐19 exposure?.
Open Forum Infect Dis., 7 (2020), pp. ofaa399
[4]
D. Pierron, V. Pereda-Loth, M. Mantel, M. Moranges, E. Bignon, O. Alva, et al.
Smell and taste changes are early indicators of the COVID‐19 pandemic and political decision effectiveness.
Commun Nat., 11 (2020), pp. 5152

Como citar este artigo: Miyake MM, Anselmo‐Lima WT. Monitoring of cases of anosmia may help control the COVID‐19 pandemic. Braz J Otorhinolaryngol. 2021;87:377–8.

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