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Relato de caso
Open Access
Disponível online em 27 de Setembro de 2022
Primeiro relato de metástase renal de câncer de língua
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Mustafa Korkmaz
Autor para correspondência
dr.musstafa@gmail.com

Autor para correspondência.
, Melek Karakurt Eryılmaz, Mustafa Karaağaç, Mehmet Artaç
Necmettin Erbakan University, School of Medicine, Department of Medical Oncology, Konya, Turquia
Recebido 15 Janeiro 2021. Aceite 15 Março 2021
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Introdução

O câncer de língua (CL) está situado no subgrupo dos cânceres de cabeça e pescoço (CCP). O carcinoma de células escamosas (CCE) é o tipo histológico predominante na língua. A incidência de CCE de língua (CCEL) tem aumentado e tem um prognóstico relativamente ruim e comportamento clínico agressivo.1 A idade média de CCEL no momento do diagnóstico é de 61 anos. Apesar de uma tendência de aumento na prevalência de CCEL, apenas cerca de 2% dos pacientes são diagnosticados antes de 35 anos e 7% antes de 45 anos.2

O rim é um local raro de metástase. As metástases renais são frequentemente relatadas em séries de autópsia (7%–12%), mas são raras na prática clínica.3 As metástases renais originam‐se principalmente de pulmão, mama, órgãos digestivos (especialmente esôfago, estômago e cólon) e melanoma.4

Neste relato, apresentamos o caso de um paciente jovem com câncer de língua que desenvolveu metástase renal e revisamos a literatura sobre cânceres não nasofaríngeos de cabeça e pescoço com metástase renal.

Relato de caso

Em abril de 2013, um paciente do sexo masculino de 36 anos apresentou‐se com uma ferida na língua e inchaço no pescoço. Tabagista de um maço de cigarros por dia havia 15 anos, não fazia uso de bebidas alcoólicas. O exame físico revelou lesão tumoral ulcerada de 30×20 milímetros (mm) à direita da língua e linfonodos palpáveis à direita do pescoço. Uma biópsia incisional da lesão na língua foi feita e o exame anatomopatológico revelou um CCEL. Na ressonância magnética (RM) com contraste do pescoço, linfadenopatia maligna foi identificada na região cervical direita 2A e nenhuma metástase foi observada na tomografia computadorizada (TC) de tórax, abdome e pelve. Hemiglossectomia direita e esvaziamento cervical bilateral foram feitos em agosto de 2013. O resultado anatomopatológico foi CCEL de grau 1. O tamanho do tumor era de 30×25mm e sua profundidade era de 10mm, três dos 48 linfonodos apresentavam metástases. Não havia invasão da cápsula, extensão xtranodal (EEN), invasão perineural ou linfovascular. As margens cirúrgicas foram descritas como negativas. Os linfonodos positivos também estavam do lado direito e o tamanho do maior linfonodo metastático era de 20mm. O estágio do tumor foi classificado como IVA pT2 pN2b M0, sétima edição do American Joint Committee on Cancer (AJCC). O paciente recebeu terapia adjuvante com cisplatina e radioterapia concomitantes. Em seu acompanhamento em abril de 2014, uma lesão cística hipodensa de 40×24mm foi observada no meio do rim esquerdo (fig. 1). Na tomografia computadorizada por emissão de pósitrons (PET‐TC), nenhum envolvimento foi observado, exceto a lesão renal. O caso foi avaliado como compatível com metástase pela equipe multidisciplinar de saúde e uma biópsia do tumor renal foi feita. A biópsia renal revelou CCE, metástase de tumor de cabeça e pescoço. Foi feita nefrectomia total esquerda no paciente, o qual não apresentava outra metástase a distância. A nefrectomia revelou lesão consistente com CCE de grau 1, o tamanho do tumor era de 80mm, sem invasão perineural e linfovascular, e as margens cirúrgicas estavam livres. Após a nefrectomia, quatro ciclos de cisplatina mais fluorouracil foram administrados. Em setembro de 2015, várias metástases foram detectadas nos pulmões e ossos do paciente. Após três ciclos de carboplatina mais docetaxel, o paciente, que não desejava receber quimioterapia, foi monitorado com os melhores cuidados de suporte (Best Supportive Care – BSC) e foi a óbito em janeiro de 2016.

Figura 1.

(A) TC de abdome no momento do diagnóstico, (B) TC de abdome em corte axial da massa renal esquerda. Lesão expansiva sólida no polo medial do rim esquerdo, com presença de área hipodensa bilobada de aspecto cístico de aproximadamente 40 × 24mm no parênquima renal.

(0,08MB).
Método

Pesquisamos os bancos de dados PubMed e Google Scholar desde seus primeiros registros até 20 de dezembro de 2020, revisamos relatos de casos e revisões da literatura de metástases renais de câncer de cabeça e pescoço.

Discussão

As taxas de metástases a distância em CCP foram relatadas como de aproximadamente 15%–25%. Estágios T avançados de câncer estão associados à maior incidência de metástases a distância. O sítio mais comum de metástase no CCE de cabeça e pescoço é o pulmão (66%); outros sítios metastáticos são: osso, fígado, pele, mediastino e medula óssea.5 A metástase renal é um evento raro, baseado principalmente em séries de autópsias com dados estatísticos. De acordo com relatos de autópsia, a incidência de metástases renais é de 3– 5%, resultantes principalmente de cânceres de pulmão, mama, estômago, cólon e melanoma.6 Na prática clínica, metástases renais de CCP são extremamente raras, mas alguns casos de CCP que desenvolveram metástases renais foram relatados. Metástases renais foram relatadas em quatro cânceres de laringe e um câncer de hipofaringe.7,8 As características desses casos estão resumidas na tabela 1. Em um estudo retrospectivo que avaliou 151 pacientes com metástase renal cujo tumor primário não era carcinoma de células renais, o CCP foi o local primário do tumor em nove (6%) pacientes. O local na região da cabeça e pescoço desses nove pacientes com CCP não foi especificoda nesse estudo. Nefrectomia foi feita em 48 (31,8%) pacientes, nove parciais (18,8%) e 39 radicais (81,2%), e ablação foi feita em três (2%) pacientes. Os 100 (66,2%) pacientes restantes foram acompanhados com tratamento paliativo sem cirurgia.9 Em outra análise retrospectiva de 43 pacientes com metástases renais, o local do tumor primário foi CCP em quatro pacientes. Os subtipos foram carcinoma tireoideano de células de Hurthle em dois pacientes, carcinoma papilar da tireoide em um paciente e ex‐adenoma pleomórfico de glândula salivar em um paciente. O intervalo médio de desenvolvimento de metástases renais foi de 3,1 anos, mas esse intervalo foi amplo (0–21,6 anos), e o primeiro local de metástase a distância detectado em 37% dos casos foi o rim. A maioria dos pacientes (56,7%) era completamente assintomática. Além disso, a maior parte das metástases renais era solitária e o diâmetro médio do tumor era de 4,1cm. A mediana de sobrevida global (SG) para toda a população do estudo desde o momento do diagnóstico de metástases renais é de 1,13 anos. A mediana de SG foi melhor em pacientes submetidos à cirurgia renal comparados àqueles sem cirurgia renal (2,24 anos versus 0,72 anos).10 Não há consenso sobre o tratamento de metástases renais. Cada caso deve ser avaliado individualmente. Tratamentos locais como nefrectomia ou radioterapia estereotáxica corporal (REC) são opções. Nefrectomia é recomendada para pacientes que não apresentam metástases a distância e cuja doença primária se encontra sob controle.4 Em nosso caso, a metástase renal se desenvolveu dois anos após o diagnóstico de câncer de língua e foi o primeiro local de metástase. A nefrectomia total esquerda foi feita porque não havia metástases a distância além da renal. O tempo de sobrevida de nosso paciente após o diagnóstico de metástase renal foi de 1,58 anos.

Tabela 1.

Características clínico‐patológicas das metástases renais de casos de câncer de cabeça e pescoço

Autores (ano)  Número de pacientes  Idade  Gênero  Sítio primário  Histologia  Tempo até diagnóstico de metástese renal  Sintomas ao diagnóstico de metástase renal  Tratamento  Acompanhamento 
Wada T et al. (2002)  67  Masculino  Carcinoma hipofaríngeo  CCE  1 ano depois  Hematúria macroscópica e desconforto no flanco esquerdo  Nefrectomia radical esquerda  O paciente ainda estava vivo 8 meses após a nefrectomia esquerda sem hematúria macroscópica ou desconforto no flanco esquerdo 
Del Vecchio S et al. (2017)  63  Masculino  Câncer de laringe  CCE  42 semanas  Dor no quadrante inferior direito  Nefrectomia radical direita  O paciente foi encaminhado a um oncologista radiológico para discutir a possibilidade de radioterapia adjuvante 
Paul NS et al. (1999)  42  Masculino  Câncer de laringe  CCE  2 anos depois  Dor abdominal  Nefrectomia radical esquerda  6 meses após a primeira evidência de metástase à distância 
Lecoeuvre V et al. (2003)  60  Masculino  Câncer de laringe  CCE  4 anos depois  Cólica renal  Quimioterapia com carboplatina  O paciente morreu 6 meses após a metástase renal 
Erbag G et al. (2013)  55  Masculino  Câncer de laringe  CCE  5 anos depois  N/D  Nefrectomia parcial direita  N/D 
Nosso caso  36  Masculino  Câncer de língua  CCE  8 meses depois  Sem sintomas  Nefrectomia radical esquerda  Os pacientes morreram 20 meses após a metástase renal 

N/D, Não disponível; CCE, Carcinoma de células escamosas.

Conclusão

Relatamos o caso de metástase renal de câncer de língua. Até onde sabemos, nosso relato de caso é o primeiro de metástase renal de câncer de língua descrito na literatura. Além disso, outra característica de nosso caso é que o paciente com câncer de língua era jovem.

Conflitos de interesse

Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

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Como citar este artigo: Korkmaz M, Eryılmaz MK, Karaağaç M, Artaç M. First renal metastasis report from tongue cancer. Braz J Otorhinolaryngol. 2022. https://doi.org/10.1016/j.bjorl.2021.03.007.

A revisão por pares é da responsabilidade da Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico‐Facial.

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