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Vol. 88. Núm. 4.
Páginas 562-569 (Julho - Agosto 2022)
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Vol. 88. Núm. 4.
Páginas 562-569 (Julho - Agosto 2022)
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Timpanoplastia tipo III com próteses de titânio versus columela do estribo: um estudo prospectivo comparativo
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Fayez Bahmad Jra,b,
Autor para correspondência
fayezbjr@gmail.com

Autor para correspondência.
, Andréa Gonçalves Perdigãoc
a Hospital Universitário de Brasília, Brasília, DF, Brasil
b Universidade de Brasília (UnB), Faculdade de Ciências de Saúde, Programa de Pós‐Graduação em Ciências da Saúde, Brasília, DF, Brasil
c Universidade de Brasília (UnB), Faculdade de Medicina, Brasília, DF, Brasil
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Resumo
Introdução

A timpanoplastia é um procedimento cirúrgico que visa reconstruir os mecanismos de transmissão do som na orelha média.

Objetivo

Analisar, do ponto de vista audiológico, pacientes com otite média crônica submetidos à timpanoplastia tipo 3 com columela maior, com prótese de reconstituição ossicular total de titânio, ou com columela de estribo com enxerto de cartilagem.

Métodos

Estudo prospectivo analítico, feito no ambulatório de otorrinolaringologia de um hospital terciário, por meio da avaliação de 26 pacientes com otite média crônica submetidos à timpanoplastia com diferentes materiais para reabilitação auditiva, como próteses de titânio ou autoenxertos de cartilagem.

Resultados

Não houve associação estatisticamente significante entre os fatores de grupo (reconstrução com cartilagem ou titânio) e variáveis pré‐operatórias. Não houve associação estatisticamente significante entre as características pós‐operatórias dos pacientes e o tipo de reconstrução; nem melhoria subjetiva (melhoria auditiva) ou perfuração residual foram associadas a um tipo de material. O fator via foi o único que demonstrou diferença estatisticamente significante, uma vez que a condução por via aérea apresentou maior melhoria do que a condução por via óssea, reduziu o gap aéreo‐ósseo.

Conclusão

Não houve diferença estatística entre os dois grupos em relação à melhoria audiométrica. Houve melhoria auditiva em ambos os grupos. Mais estudos com seguimento mais longo devem ser feitos para uma melhor avaliação da evolução.

Palavras‐chave:
Timpanoplastia
Próteses
Estribo
Otite Média
Texto Completo
Introdução

A timpanoplastia é um procedimento cirúrgico desenvolvido para reconstruir os mecanismos de transmissão do som na orelha média. A nova era da timpanoplastia começou em 1950 com o trabalho pioneiro de Wüllstein1 e Zollner.2 Muitos outros otologistas desde então contribuíram para o desenvolvimento e refinamento das técnicas de timpanoplastia. Wüllstein classificou as técnicas de operação do tipo I até o tipo V e adotamos uma versão modificada de sua classificação, proposta por Merchant em 2003 (tabela 1).1–5

Tabela 1.

Wüllstein modificada pela classificação de Merchant

Tipo de timpanoplastia  Doença da orelha média  Enxerto 
Timpanoplastia + Mastoidectomia
Canal wall‐up:
Tipo 1  Perfuração da MT; ossículos intactos e móveis  Enxerto de fáscia temporal; pericôndrio; cartilagem 
Tipo 2  Pequena descontinuidade ossicular (ao longo do processo longo da bigorna e estribo)  Cartilagem; osso mastoide 
Tipo 3: columela menor  Martelo e bigorna afetados; estribo intacto e móvel, parede do canal posterior intacta  Ossículos autólogos, osso cortical de crânio autólogo, hidroxiapatita ou PORP de titânio 
Tipo III: columela maior  Superestrutura do estribo ausente, platina móvel  Hidroxiapatita ou TORP de titânio entre a platina e a MT/manúbrio 
Timpanoplastia + Mastoidectomia
Canal wall‐down:
Tipo 3: columela do estribo  Estribo intacto e móvel  Disco de cartilagem fino + enxerto temporal na cabeça do estribo 
Tipo 3: columela maior  Superestrutura do estribo ausente, platina móvel, nicho de janela oval estreita e profunda  Hidroxiapatita ou TORP de titânio + disco de cartilagem fino + enxerto de fáscia 
Tipo 4  Superestrutura do estribo ausente, platina móvel, nicho de janela oval rasa e larga  Enxerto de pele fina sobre a platina, cartilagem espessa + fáscia temporal para proteger a janela redonda 
Tipo 5  Platina fixa  Estapedectomia total de segundo estágio com enxerto de tecido adiposo e fáscia de cartilagem espessa para proteger a janela redonda 

MT, Membrana timpânica; TORP, Prótese de substituição ossicular total; PORP, Prótese de substituição ossicular parcial.

Em pacientes com otite média crônica (OMC), existem três objetivos principais a serem alcançados na timpanomastoidectomia: 1) Erradicar a doença para manter a orelha arejada e seca; 2) Modificar a estrutura para evitar doenças recorrentes e melhorar o monitoramento; 3) Restaurar a estrutura da orelha média para restabelecer o processo auditivo. Embora este artigo esteja focado no terceiro objetivo, devemos enfatizar que a técnica empregada considerou os dois primeiros objetivos ao ser escolhida.5–7

Em uma orelha saudável, as ondas sonoras recebidas do ar movem a membrana timpânica (MT). Essa energia acústica flui por toda a cadeia ossicular, concentra a energia de uma superfície maior, a MT, para uma menor, a janela oval. Quando esse mecanismo está prejudicado, optamos por fazer uma timpanoplastia, que visa religar a MT e a cadeia ossicular, para que seja móvel e capaz de restabelecer a pressão sonora na membrana da janela oval. A melhoria é mais significativa nas frequências entre 250 e 1000Hz, variaa em torno de 20dB.1–7

Este artigo tem como objetivo analisar, do ponto de vista audiológico, pacientes com OMC divididos em dois grupos: G1, com pacientes submetidos à timpanoplastia major tipo III com prótese de substituição ossicular total (TORP, do inglês Total Ossicular Replacement Prosthesis) de titânio; e grupo G2, com pacientes submetidos à reconstrução da columela do estribo com enxerto de cartilagem autóloga. Os testes de audiometria de tons puros foram feitos 6 meses antes e depois da cirurgia em ambos os grupos e o período de acompanhamento foi de 6 meses.1–7

Método

Estudo prospectivo analítico feito com 26 pacientes com OMC atendidos em um centro de referência, submetidos à timpanoplastia do tipo canal wall down (CWD) e mastoidectomia com o uso de diferentes materiais e métodos de reabilitação auditiva, divididos em dois grupos: G1, com pacientes submetidos à timpanoplastia tipo 3 com TORP de titânio (columela major), e G2, com pacientes submetidos à reconstrução com cartilagem autóloga (columela do estribo).6–8

Os critérios de inclusão foram pacientes com OMC submetidos à timpanoplastia tipo 3 com columela major ou columela do estribo que mantiveram a cavidade timpânica seca e aerada após exame cuidadoso do pesquisador. E os critérios de exclusão foram pacientes que abandonaram o acompanhamento ambulatorial em até 6 meses após a cirurgia. Todos os pacientes incluídos concordaram em assinar o termo de consentimento livre e esclarecido (TCLE), que reafirma o caráter voluntário da participação e esclarece todos os procedimentos e sua segurança ao participante.

Este projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Faculdade de Ciências da Saúde. Por se tratar de uma pesquisa que envolveu seres humanos, os aspectos éticos estipulados pela resolução 466/12 do Conselho Nacional de Saúde/Ministério da Saúde garantiram aos participantes todas as informações sobre o objetivo da pesquisa, o anonimato, o TCLE e a liberdade para desistir da participação em qualquer etapa da pesquisa. O TCLE foi oferecido para assinatura dos participantes, que tiveram seus direitos garantidos. Os participantes tinham conhecimento de que os parâmetros audiológicos pré e pós‐operatórios seriam analisados, estavam, portanto, livres de riscos durante a pesquisa. O pesquisador é responsável pelo sigilo das informações do paciente.

Os instrumentos da pesquisa foram questionários previamente testados e validados, os quais foram aplicados antes e após os pacientes serem submetidos à timpanoplastia para reabilitação auditiva. Todos os exames de audiometria de tons puros foram feitos no serviço de otorrinolaringologia do centro de referência. Foram registrados os dados audiométricos pré e pós‐operatórios, os achados intraoperatórios e o tipo de prótese usado. As seguintes frequências foram avaliadas nos testes pré e pós‐operatórios: 500, 1000, 2000 e 3000Hz. A média de tom puro (PTA, do inglês pure tone average) foi calculada com as frequências 500, 1000, 2000, e 3000Hz.

Após a coleta de todos os dados por meio do questionário, esses foram processados com o software excel para Windows. A análise estatística foi feita com o software SPSS (Statistical Package for the Social Sciences, Chicago, IL, EUA) versão 13 para Windows. As possíveis associações entre o grupo e as variáveis pré‐ e pós‐operatórias foram avaliadas pelo teste qui‐quadrado.

As possíveis associações entre o grupo e as variáveis pré e pós‐operatórias foram avaliadas pelo teste do qui‐quadrado. A correção do nível de significância estatística em todas as tabelas de contingência 2 × 2 foi feita com mo teste exato de Fisher.

Comparações de média de idade, teste de audiometria de tons puros durante a primeira sessão e diferença média no limiar de reconhecimento da fala (LRF) (o nível de som mais baixo em que palavras e sílabas podem ser identificadas) entre os grupos foram feitas com o teste t para medidas independentes.

Para eliminar um fator (sessão) na análise de desenho misto, foi calculada a diferença antes–depois para cada uma das frequências, média de tons puros e LRF avaliada na audiometria de tons puros. Essa abordagem também tem a vantagem de permitir comparações diretas entre frequências e vias de condução e eliminar diferenças que possam estar presentes desde o início do estudo.

A análise das diferenças médias (antes–depois) foi feita com o modelo Anova split‐plot (análise de variância com delineamento em parcelas subdivididas) com os fatores de grupo (reconstrução com titânio ou cartilagem) como variáveis independentes; forma de condução (aéreo e óssea) e fatores de frequência (500, 1000, 2000 e 3000Hz) como medidas repetidas. Na análise da média dos tons puros, o fator frequência foi retirado.

O método Greenhouse‐Geisser foi usado para corrigir os graus de liberdade (esfericidade não assumida), mas os valores originais dos graus de liberdade são apresentados. O procedimento de comparações múltiplas usou o método de Bonferroni para corrigir o nível de significância estatística.

Também testamos se as diferenças médias eram estatisticamente diferentes de 0 com o teste t para uma amostra. Os resultados são exibidos como média e erro‐padrão. O nível de significância estatística foi estabelecido em 5% (p <0,05).

Resultados

Não houve associação estatisticamente significante entre as características pré‐operatórias dos pacientes e o material de reconstrução usado. Sexo, lado operado, cirurgia anterior, associação de colesteatoma, erosão do processo longo da bigorna e característica associada de OMC não influenciaram a inclusão no grupo titânio (reconstrução com titânio) ou grupo cartilagem (reconstrução com cartilagem) (tabela 2). Também não houve diferença entre a média de idade dos pacientes submetidos à reconstrução com cartilagem ou titânio (38,9±3,1 e 44,0±4,0; p=0,316) (fig. 1).

Tabela 2.

Resultados da associação entre as características pré‐operatórias dos pacientes e o fator grupo (material de reconstrução)

Variável  Reconstrução  Cartilagem  Reconstrução  Titânio  X2  p‐valor 
     
Sexo
Feminino  23,0  46,2  0,119  0,749 
Masculino  10  77,0  53,8     
Lado operado
Direito  53,8  46,2  0,073  >0,99 
Esquerdo  46,2  53,8     
Cirurgia anterior
Não  11  84,6  11  84,6  0,588  0,512 
Sim  15,4  15,4     
Colesteatoma
Não  53,8  46,2  0,029  >0,99 
Sim  46,2  53,8     
Erosão do processo longo da bigorna
Não  23,0  0,0  1,867  0,287 
Sim  10  77  13  100,0     
Diagnóstico
OMC  0,0  0,0  7,667  0,105 
OMC + colesteatoma  46,15  53,84     
OMC Simples  30,76  41,15     
OMC supurativa  23,07  0,0     
Trauma  0,0     

OMC, Otite média crônica; n, número.

Figura 1.

Média da idade dos pacientes submetidos à reconstrução da orelha média com titânio ou cartilagem (grupo 1 ou grupo 2). Não há diferença estatisticamente significante entre os dois grupos com base na idade (38,9±3,1 e 44,0±4; p=0,316).

(0,05MB).

Não houve associação estatisticamente significativa entre as características pós‐operatórias dos pacientes e o fator do grupo. Apesar do número diferente de pacientes que apresentavam melhoria auditiva e perfuração residual entre os grupos, a diferença não foi estatisticamente significante (tabela 3).

Tabela 3.

Resultados da associação entre o fator grupo e as características pós‐operatórias da amostra

Variável  X2  p‐valor 
Procedimento
MT canal wall down  26  100     
MT CWD + Timpanoplastia Tipo 3: columela do estribo  13  50     
MT CWD + Timpanoplastia Tipo 3: TORP de titânio (Kurz)  13  50     
Reconstrução
Cartilagem da concha/estribo  15,4     
Cartilagem do trago/estribo  34,6     
TORP de titânio (Kurz)  13  50     
Melhoria na Audição
MT CWD + Timpanoplastia Tipo 3: columela de estribo
Sim  10  77     
Não  23     
      1,202  0,388 
MT CWD + Timpanoplastia Tipo 3: TORP de titânio (Kurz)
Sim  13  100     
Não     
Perfuração residual
MT CWD + Timpanoplastia Tipo 3: columela do estribo
Sim  15,4     
Não  11  84,6     
      0,032  >0,99 
MT CWD + Timpanoplastia Tipo 3: TORP de titânio (Kurz)
Sim  7,7     
Não  12  92,3     

MT, Membrana timpânica; CWD, Canal wall down; TORP, Prótese de substituição ossicular total.

Resultados de testes audiométricos

Os resultados da audiometria de tons puros pré‐operatória em cada grupo não mostraram associação estatisticamente significante na maioria das frequências medidas nas duas formas de condução. Apenas uma diferença levemente significante foi encontrada entre os grupos na frequência de 1000Hz registrada pela condução óssea (tabela 4).

Tabela 4.

Média dos testes de audiometria de tons puros pré‐operatória dos pacientes (limiar da condução aérea e condução óssea) em quatro frequências diferentes e a média de tons puros dos dois grupos (cartilagem e titânio). O valor de p refere‐se à comparação das médias entre os grupos

Variável  CartilagemTitâniop‐valor 
  Média  EP  Média  EP   
Condução aérea
500 Hz  52,9  2,9  51,3  4,0  0,750 
1000 Hz  53,7  3,4  49,0  5,1  0,434 
2000 Hz  47,3  2,1  45,0  4,8  0,664 
3000 Hz  49,2  2,6  44,0  4,8  0,304 
Média de tons puros  50,8  2,4  47,3  4,4  0,502 
Condução óssea
500 Hz  14,0  2,1  9,0  1,6  0,102 
1000Hz  15,6  2,4  8,3  1,8  0,020 
2000 Hz  17,7  2,3  16,0  3,4  0,673 
3000 Hz  21,3  3,2  15,3  3,4  0,230 
Média de tons puros  17,2  2,3  12,2  2,3  0,156 
LRF  51,9  2,9  50,3  5,6  0,802 

LRF, Limiar de reconhecimento da fala; EP, Erro‐padrão.

O teste Anova split‐plot não encontrou efeito estatisticamente significativo do fator grupo (titânio ou cartilagem) na média da diferença (antes–depois) dos resultados da audiometria de tons puros (F1,39=0,979, p=0,329). Entretanto, a média da diferença (antes–depois) do limiar de condução aérea é estatisticamente significativa em todas as frequências avaliadas para ambos os materiais, o que indica que é improvável que a hipótese nula – sem melhoria auditiva – ocorra. Houve diferença estatisticamente significante ao se analisar o fator via (via aérea ou via óssea) (F1,39=28,316, p <0,001) (tabela 5). O procedimento de comparações múltiplas mostrou que as médias das diferenças do limiar de condução aérea foram significantemente maiores do que as registradas pelo limiar de condução óssea, independentemente do grupo ou frequência avaliada (p <0,01). O fator frequência e as interações via × grupo, frequência × grupo, via × frequência e via × frequência × grupo não tiveram efeito significante na diferença média (F <1,665, p> 0,188 em todos os casos) (figs. 2 e 3).

Tabela 5.

Média das diferenças (antes–depois) e erro‐padrão do limiar da condução aérea e limiar da condução óssea para as diferentes frequências em ambos os grupos (cartilagem e titânio) e a média de tons puros. O valor de p refere‐se à comparação com o valor 0 (teste t de uma amostra)

Diferença média  Cartilagemp‐valor  Titâniop‐valor 
  Média  EP    Média  EP   
Condução aérea
500 Hz  12,1  3,1  0,001  15,7  4,4  0,003 
1000 Hz  10,0  3,1  0,003  14,0  5,2  0,017 
2000 Hz  10,0  2,4  0,000  17,0  4,3  0,002 
3000 Hz  8,3  2,2  0,001  14,0  3,6  0,002 
Média de tons puros  10,1  2,4  <0,001  15,2  4,1  0,002 
Condução óssea
500 Hz  1,7  1,6  0,280  ‐1,0  1,0  0,334 
1000 Hz  1,2  1,4  0,407  0,3  2,0  0,869 
2000 Hz  ‐1,2  1,8  0,523  3,0  1,7  0,108 
3000 Hz  1,0  2,2  0,661  1,0  2,2  0,663 
Média de tons puros  0,7  1,4  0,635  0,8  1,4  0,006 
LRF  11,2  3,1  0,001  16,2  5,0  0,554 

LRF, Limiar de reconhecimento da fala; EP, Erro‐padrão.

Figura 2.

Média da diferença pré‐pós‐operatória e erro padrão dos limiares de condução aérea e óssea para cada frequência avaliada pela audiometria de tons puros em ambos os grupos. * Via óssea < via aérea (p < 0,001).

(0,09MB).
Figura 3.

Média da diferença pré‐pós‐operatória e erro‐padrão dos limiares da condução aérea e óssea para cada frequência avaliada pela audiometria e tons puros em ambos os grupos. * Via óssea < via aérea (p < 0,001).

(0,1MB).

A média de tons puros não apresentou efeito significativo no fator grupo (F1,39=0,979, p=0,329). Porém, com base nos testes de audiometria tonal, o fator via teve efeito significante sobre a diferença média (F1,39=28,316, p <0,001). O gap aéreo‐ósseo (GAO) pré‐operatório de 33,6±4,7 foi reduzido para 24,2±8,5 no grupo cartilagem e de 35,1±6,7 para 20,7±12,2 no grupo titânio (p <0,01). O limiar de condução aérea apresentou uma diferença média significantemente maior em comparação com a condução óssea (p <0,001). A interação grupo × via não apresentou efeito significativo (F1,39=1,210, p=0,278) (fig. 4).

Figura 4.

Média da diferença antes‐depois e erro‐padrão da média de tons puros avaliada com base nos limiares de condução aérea e óssea em ambos os grupos. * Via óssea < via aérea (p <0,001).

(0,06MB).

Não houve diferença significante entre os grupos na diferença média do limiar de reconhecimento da fala (LRF) (t=‐0,911, p=0,368) (fig. 5).

Figura 5.

Média da diferença antes‐depois e erro padrão do limiar de reconhecimento da fala (LRF) avaliado pela audiometria de tons puros para cada grupo. * Não estatisticamente significante; p > 0,05.

(0,05MB).
DiscussãoInfluência das características pré e pós‐operatórias e status da orelha média

Os melhores resultados audiométricos ocorrem quando a orelha média está aerada, seca e segura após a cirurgia, de forma que a cadeia ossicular – ou o material que a substitui – esteja móvel e estável, como evidenciado por vários outros estudos.3–5,9,10

A maioria das características pré‐operatórias dos pacientes não influenciou na escolha dos métodos e do material usados na timpanoplastia tipo 3 A escolha foi feita com base na viabilidade da estrutura do estribo; caso fosse móvel e sem sinais de danos, era mantida e o enxerto de cartilagem era usado. Mas se a estrutura do estribo estivesse danificada e a platina fosse móvel, a prótese de titânio era escolhida.3–5,8,11

Algumas características pré‐operatórias – como a idade do paciente e associação de colesteatoma – intuitivamente nos levam a supor que o enxerto de cartilagem é pior do que a prótese de titânio. Kartush12 aponta que a cartilagem, como material biológico, é propensa a se degradar mais rapidamente. Mas, no momento de nosso seguimento, não havia sinal de degradação da cartilagem nos testes audiométricos.3–9,11–16

Além disso, a característica pós‐operatória não apresentou diferença estatisticamente significativa na variável grupo. Houve uma pequena diferença no número de pacientes com melhoria auditiva no grupo titânio, mas não foi estatisticamente significante. A variação provavelmente é consequência do número reduzido de casos analisados neste estudo.10,12,17,18

Análise audiométrica

A análise dos resultados da audiometria de tons puros, em diferentes frequências, mostrou melhoria auditiva estatisticamente significante ao diminuir a média do limiar da condução aérea 6 meses após a cirurgia, mas o fator grupo não influenciou a melhoria, uma vez que é comparável para ambos os métodos.

Os fatores grupo e frequência não indicaram influência significativa na diferença média, mas, na análise do fator via (condução por via aérea e óssea), a média da diferença (antes–depois) mostrou uma maior melhoria na condução aérea do que na condução óssea. Isso é esperado em cirurgias de timpanoplastia do tipo 3, uma vez que ela diminui o gap aéreo‐ósseo.6–9,19,20

Na condução por via aérea, o som é conduzido pelo ar, faz vibrar o enxerto da MT e todas as estruturas da orelha média para transmitir a energia acústica para a janela oval e, consequentemente, para a cóclea. Por outro lado, o teste de condução óssea faz vibrar o osso mastoide e o crânio até que a vibração atinja a cóclea, não envolve as estruturas da orelha média para conduzir o som. Assim, a reconstrução da estrutura da orelha média restabelece a passagem do som pela via aérea, corrige a perda auditiva condutiva e resulta em uma melhoria significativa da capacidade auditiva e redução do gap aéreo‐ósseo.4–7,19,20

O gap aéreo‐ósseo (GAO) é a diferença entre o limiar da condução aérea e da condução óssea na média de tom puro. O GAO é positivo sempre que ocorre uma perda auditiva condutiva, como em nossos pacientes com OMC. O GAO ainda é tolerado no pós‐operatório, uma vez que a melhoria auditiva é significativa, mas não completa após a cirurgia com ambos os materiais. A meta de melhoria após a timpanoplastia é um GAO ≤ 20dB, mas geralmente ≤ 30dB não é um problema para a vida normal do paciente.19–21

Múltiplos fatores podem perpetuar o GAO pós‐operatório, como Okada et al.20 ressaltaram: as modificações na estrutura ossicular da orelha média são maciças nos dois métodos, podem ocasionar alguma perda de energia acústica ao longo do novo material, conservam uma perda auditiva parcial. A possível lateralização da MT, formação de tecido fibrótico ao redor do enxerto ou prótese pode enrijecer o sistema, diminui a mobilidade e a vibração, especialmente quando induzida por altas frequências.20,21

Isso é apoiado por Nishihara et al.,9 que testaram diferentes quantidades de massa adicional na MT, estribo e prótese para descobrir que essas massas adicionais diminuiriam a melhoria da audição em algumas frequências, principalmente nas altas.9

O titânio tem menos probabilidade de causar um acréscimo significativo de peso, por ser um material leve. Mas a prótese tem chance de extrusão, a qual é pequena e nem sequer ocorreu em alguns estudos com seguimento curto. Como em nosso estudo, não houve caso de extrusão.22–25

Um entendimento completo das características que influenciam a melhora da audição e as diferentes complicações pós‐operatórias nos levaria a resultados ainda melhores no futuro.

Conclusão

Neste estudo, os resultados audiométricos dos 26 pacientes submetidos à timpanoplastia tipo 3 com prótese de titânio ou columela do estribo com enxerto de cartilagem não apresentaram diferença estatisticamente significante, o que indica que em um curto período (6 meses) o material de escolha não influencia a melhoria da audição em pacientes com OMC. Também concluímos que as características pré e pós‐operatórias não influenciaram o material escolhido. A escolha do método e do material foi feita com base na viabilidade da estrutura do estribo.

O fator via (condução por via aérea ou óssea) influencia a melhoria da audição, uma vez que a condução aérea mostrou melhores resultados, reduziu o gap aéreo‐ósseo.6,9,20

Porém, mais estudos ainda são necessários sobre esse tópico. Mais pacientes avaliados e um seguimento mais longo poderiam esclarecer algumas dúvidas remanescentes. Mais participantes no estudo poderiam demonstrar uma diferença estatisticamente significante entre os grupos de prótese de titânio e enxerto de cartilagem. Um seguimento mais longo poderia demonstrar melhores resultados auditivos em longo prazo para uma ou outra técnica, mesmo se considerarmos as possíveis causas dos maus resultados – retração ou perfuração do enxerto da MT, extrusões de próteses – e desenvolver hipóteses sobre como evitar esses eventos.10,14,15,19,21

Mais estudos serão necessários para responder todas essas perguntas e aumentar a chance de resultados ainda melhores.

Conflitos de interesse

Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

Referências
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Como citar este artigo: Bahmad Jr F, Perdigão AG. Titanium prostheses versus stapes columella type 3 tympanoplasty: a comparative prospective study. Braz J Otorhinolaryngol. 2022;88:562–9.

A revisão por pares é da responsabilidade da Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico‐Facial.

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Brazilian Journal of Otorhinolaryngology

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